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Temer o que a noite traz para você quando está dormindo
acordar e não conseguir se levantar com o peso da noite nos ombros
voltar para casa com a dor do soco que o dia deu em você
nenhum desses dias me polpou
a vida é um soco no estomago
mas a morte dos meus é quem bate mais forte
minha dor é inquilina do vazio
Meu desapontamento paira nos meus olhos e ninguém me vê
a frustração é um espírito assombrando sua casa abandonada
no espaço reservado entre as lágrimas
vagueando pelos aposentos ocos no seu peito
arrastando correntes pesadas pelos quartos da sua alma
já a alegria, me esqueci do rosto que tinha
mas descobri que ela é como uma criança frágil e ingenua
que será estraçalhada pela vida
uma criança perdida nos escombros da cidade sitiada
que vai se transformando e se perdendo à medida que amadurece
diluindo nas águas do tempo.
sim, presenciei isso mil vezes
minha alegria perdida
era um cartaz num poste, uma foto no mural dos filhos desaparecidos
minha alegria perdida com aqueles que perdi
a morte é quem bate mais forte
minha alegria perdida com aqueles que não pude receber,
os que não me foram autorizados receber
aos meus que a mim foram negados,
e os que sem perceber tive que renunciar
a morte bate mais forte que trovões
mais forte que a queda dágua de sufocantes toneladas sobre suas costas
a morte bate mais forte que seu coração...
sim,
confesso que o nocaute da morte me deixou sequelas
hematomas escuros que escondo atrás dos óculos escuros
meu sorriso vermelho de sangue
olheiras carregadas de negro,
negro desespero
dos órfãos, das viúvas e dos refugiados
eu era uma pequena criança silenciosa perdida no bombardeio
olhos brancos e paralisados de choque
coberta de pó, fumaça e lágrimas
O nocaute da morte foi como Hiroshima e Nangassaque no meu peito.
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